Neste universo gigantesco de milhões de peças, somos seres que querem compreender o que não é para ser compreendido e como todo ser humano (e por isso somos humanos) brincamos. A natureza brinca e brincamos com os seus brinquedos. Brincamos de colocar em ordem o que não é ordenável. Brincamos de classificar o que não é classificável.
Deus, como criança, nos oferece brinquedos que não conseguimos catalogar, pois são diferentes, únicos, absolutos, originais e não encontramos semelhantes entre as árvores, os bichos, a chuva, o vento, os rios, a terra e a gente.
É interessante o que disse o teólogo e místico alemão do século XVI, Jacob Bohem: "o primeiro casal humano foi expulso do paraíso quando deixou de brincar e começou a trabalhar".
O desejo de brincar não teria sido criado por Deus? Deus levou a sua semelhança a espécia humana – uma espécie criança. Brincar para nós, não é ludicidade, é necessidade. O homem tem que se conservar criança, pois se atingir a maturidade acaba a sua "viagem", neste planeta. As brincadeiras e os jogos constituem as nossas funções, o nosso viver; os papéis que representamos, realizando tarefas bem ou mal, tendo parcerias ou não.
Em todo esse brincar, a nossa participação é com o corpo e a alma. Essas "entidades" não sobrevivem separadas. O corpo é o físico que vemos, a alma é o avesso do corpo. Um depende do outro, como constantemente se confundem. Impossível a separação do sensível e inteligível, do corpo e da mente, do físico e do espírito.
Não são mais ou menos importante o papel da mente e do corpo. O cérebro pode representar ações por imagens, a mão pode bater e arremessar. Pensar não é mais importante que acariciar. O cérebro representa o que a mão pega e a mão o que o cérebro deseja.
Sensível e intelígivel habitam um humano corporal. No jogo da vida ganhamos e perdemos algo em cada ação, por mínimo que seja. É a partir desse momento que a criança forma consciência de si como indíviduo, que percebe o valor da morte. Somos seres motores em corpos locomotores. Pela capacidade existimos e pela motricidade nos humanizamos. A motricidade não é um movimento qualquer, é expressão humana. Somos locomotores diferentes dos vegetais, que onde nascem permanecem.
Nossa história é de domínio do intelecto sobre o corpo, do senhor sobre o escravo, do patrão sobre o trabalhador, do trabalho intelectual ao corporal, portanto da alma sobre o corpo.
Olhar crianças brincando é uma oportunidade privilegiada para tentar compreender o fenômeno do sensível e do intelígivel. A criança brincando não é sensível nem tão pouco inteligível – é motricidade. A cultura humana é, de certa forma, a extensão cada vez mais ampla do corpo humano. O corpo não seria humano, se não fosse a cultura.

Esse corpo motor e psicomotor é que serve como equipamento para essa atividade vital ao homem: BRINCAR